|
FRANCISCO
CAMPOS:
"A
Abrasco deve ser dinâmica como foi no passado"
O
professor e médico Francisco Eduardo Campos é um dos
mais importantes nomes que construíram o campo de recursos
humanos de saúde no País. Desde a década de 1970 que
o seu nome circula com muito vigor entre os profissionais
de saúde pública. Em 1978 ingressou como docente no
Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade
de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais,
|
|
| onde
atualmente é professor adjunto. É também mestre em Medicina
Social pelo Instituto de Medicina Social da Universidade
Estadual do Rio de Janeiro e doutor em Saúde Pública pela
Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz. |
Respeitado
por todos, Francisco Campos é um nome polêmico, ocupou e ocupa
importantes cargos públicos. De 1981 a 1983 foi vice-presidente
da Abrasco, instituição da qual hoje é novamente vice-presidente
e coordenador do Grupo de Recursos Humanos e Profissões; foi
também secretário de recursos humanos do Ministério da Saúde
nos anos de 1985 e 1986 e consultor, entre 1989 e 1996, em
Desenvolvimento de Recursos Humanos da Organização Pan-Americana
da Saúde /Organização Mundial da Saúde. O professor é o coordenador
geral do Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva da UFMG e consultor,
desde 1998, da Coordenação Geral de Política de Recursos Humanos
para o SUS do Ministério da Saúde, na área de formação profissional,
além de também fornecer consultoria para o Programa UNI, da
Fundação W.K. Kellogg.
Francisco
Campos gentilmente respondeu, via e-mail, ao Observatório
RH NESC/UFRN, após contatos mantidos em novembro de 2001,
quando o professor esteve em Natal, Rio Grande do Norte, como
convidado da Primeira Oficina de
Trabalho da Rede CADRHU, coordenada pelo Nesc da Universidade
Federal do Rio Grande do Norte.
Qual o ano de fundação da Associação
Brasileira de Pós-graduação em Saúde Coletiva, Abrasco, e
com que finalidade ela foi criada?
A
Abrasco foi criada em 1979 e uma de suas primeiras missões
foi a associação de programas de pós-graduação em saúde coletiva/pública.
Neste momento, ênfase muito especial foi dada à residência
em medicina preventiva e social, que foi dramaticamente expandida
no País devido a um convênio firmado entre o então Inamps
e várias universidades para a expansão dessa modalidade de
formação. A residência, que até então era apenas reprodutora
de quadros para os Departamentos de Medicina Preventiva e
Social, passou a formar gestores sanitários para o que viria
a ser o SUS.
Início
Quais
as áreas de atuação da Associação?
Sempre
existiu um grande debate sobre a Abrasco ser uma associação
de pós-graduação em Saúde Coletiva ou de Saúde Coletiva. Eu
fui voto vencido em uma memorável assembléia no Congresso
Brasileiro em Saúde coletiva que se realizou na Universidade
Estadual do Rio de Janeiro-UERJ, não me lembro mais o ano.
Eu defendia que fosse de Saúde Coletiva, o que daria mais
uma semelhança a Canadian Association of Public Health, ou
mesmo a American Association of Public Health, que são associações
que expressam o pensamento da saúde pública "dialogando" com
os policy-makers da saúde sem estarem a eles atreladas. Na
verdade, ainda que conservando o nome de pós-graduação, a
Abrasco cumpriu muitas vezes este papel no Brasil, vindo a
público se manifestar sobre propostas políticas e estando
com o Centro Brasileiro de Estudos em Saúde Coletiva - Cebes,
presente em muitos fóruns, incluído a representação da comunidade
científica junto ao Conselho Nacional de Saúde - CNS. Resumindo,
haveria então duas funções, uma de caráter mais "corporativo",
que seria a defesa da investigação e do ensino em saúde coletiva,
e outra de ser porta-voz dos pensamentos da comunidade científica.
A
Abrasco deve ser dinâmica como foi no passado, sem perder
sua missão central. Não é casual que tenha sido mais ligada
à pós-graduação stricto sensu nos últimos anos, em função
da notável expansão destes programas. No presente momento
em que se vislumbra a criação de uma agência nacional de investigação
em saúde, a Abrasco deverá dirigir a sua atenção a isto. Entretanto,
é propósito da atual diretoria retomar áreas sobre as quais
se faz necessária uma atuação mais cuidadosa, como o ensino
graduado e a pós-graduação lato sensu, bem como a expressão
política da produção científica para toda a sociedade brasileira,
atuando como formadora de opinião.
Início
Como
está organizada a diretoria?
A
diretoria se compõe de um presidente e cinco vice-presidentes,
além de um Conselho Fiscal que é formado por representantes
de cinco instituições afiliadas. Na gestão atual não há separação
entre essas duas categorias e todas as reuniões de diretoria
incluem ambas.
Início
Como
as pessoas podem se associar? Existe algum critério?
Existem
duas categorias de sócios: os individuais e os institucionais.
No primeiro, incluem-se aqueles que têm função docente, discente
ou que sejam trabalhadores na área de saúde pública /coletiva.
Os sócios institucionais são os programas acadêmicos que fazem
docência e pesquisa em saúde coletiva.
Início
Quais
as maiores dificuldades da Associação?
Associações
como a Abrasco têm especialmente dificuldades financeiras,
dado que os sócios não podem, em função da crise, pagar anuidades
altas. Por outro lado, não há por parte do governo brasileiro,
como há em outros países, uma clareza da importância da parceria
com este tipo de associação. Assim fica difícil cobrir as
atividades regulares existentes entre os congressos. Sem embargo,
existe uma grande vitalidade da Associação, sem similar em
qualquer país da América Latina, como se pode ver pelos milhares
de trabalhos inscritos nos congressos gerais e de áreas temáticas.
Início
Como
ela se articula com os órgãos governamentais ou com outras
associações similares?
A
Abrasco tem buscado o estabelecimento de parcerias com os
gestores do SUS, especialmente com o Ministério da Saúde,
apoiando aquelas políticas que condizem com o seu ideário.
A Abrasco, recentemente, por si ou através de seus sócios
institucionais, vem participando de uma série de capacitações
para a gestão em saúde e também dos conselheiros municipais
de saúde; tem também vinculações com outras sociedades científicas,
sendo vinculada à SBPC e mantendo laços de parceria com associações
similares, como as sociedades de ciências sociais, demografia,
de biologia experimental, entre outras.
Início
Qual
o significado de um Grupo de Trabalho de Recursos Humanos
na Abrasco?
Certamente
em políticas de saúde a área conhecida como desenvolvimento
de Recursos Humanos ocupa lugar privilegiado. A formação de
pessoal, a regulação do mercado e a gestão do trabalho, numa
conjuntura de desregulamentação e precarização do trabalho
têm lugar de destaque. Esse GT - cujo nome é RRHH e Profissões
- tem o propósito de cuidar desse campo.
Início
Qual
é a proposta desse GT RRHH? E como ele funciona?
O
GT RRHH&P na corrente gestão acumulou também as funções de
fazer a interface com os gestores do SUS no que diz respeito
à capacitação, que não seja a acadêmica. Seus componentes
são escolhidos pelo background técnico, o que significa pesquisadores
e docentes com produção científica e aporte na área de desenvolvimento
de RRHH e profissões. Devido à crise financeira anteriormente
apontada não há muita condição para realização de reuniões
rotineiras. Quase sempre se aproveita a realização de eventos
nacionais onde esteja um bom número de componentes para reuni-los.
Há a previsão de realização de um evento em março próximo,
quando a representação da OPAS no Brasil realiza uma reunião
da Rede de Observatórios de Recursos Humanos, o que é uma
ferramenta importantíssima para o desenvolvimento de investigações
em RRHH&P.
Início
Quais
foram as principais conquistas da Abrasco nesses últimos
anos?
O
restabelecimento de uma relação mais "parceira" com os gestores
do SUS para superar o conceito de que as licitações internacionais
são a única forma transparente de "compra de serviços" pode
ter sido um avanço desses últimos anos, considerada a peculiaridade
da reforma sanitária brasileira. Há várias indicações de que
se pode ter uma relação mais estável, que inclua o apoio institucional
às academias que estejam de fato envolvidas no processo de
aperfeiçoamento do SUS, e isso já pode ser considerado uma
conquista.
Início
|