MÍRIAM STRUCHINER:
"estudar a distância exige responsabilidade, disciplina e autonomia"

A professora Míriam Struchiner concedeu essa entrevista a revista Olho Mágico, ano 6. n.21, no mês de maio de 2000. O Observatório RH NESC/UFRN, atenta a importância das declarações da professora sobre Educação a distância, e considerando que o Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Norte coordenou o curso piloto do Programa de Aprendizagem a distância sobre Gestão Descentralizada de Recursos Humanos em Saúde, resolveu, com autorização da entrevistada, republicar o texto. Míriam Struchiner é doutora em Educação, na área de Tecnologia Educacional, professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro/Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde, além de ser coordenadora do Laboratório de Tecnologias Cognitivas e do Programa de Pós-graduação em Tecnologia Educacional nas Ciências da Saúde da UFRJ.

No início da entrevista, a professora Míriam Struchiner observou: "Inicialmente é importante deixar claro que, ao falarmos sobre Educação a distância (EAD), estamos falando de educação, ou seja, do processo de transmissão, construção e reconstrução do conhecimento e da formação de cidadãos competentes e conscientes de seu papel em nossa sociedade, capazes de atuarem produtivamente e comprometidamente em seu ambientes sociais em sua essência, já que ambos são educação, mas em aspectos pontuais; a educação a distância pressupõe a distância física entre professores e alunos e entre alunos e seus colegas, mas nunca a distância de uma relação construtiva e dialógica entre os atores envolvidos no processo educativo. É com esta visão primordial que devemos discutir o modelo de EAD que desejamos e suas implicações", concluiu a professora dando início a entrevista que se segue.


A Educação a distância é eficaz em termos de aprendizagem?

Educação de qualidade, que coloca o aluno no centro do processo educativo, como sujeito da educação e construtor de seu próprio conhecimento, que assume a responsabilidade e desenvolve/incorpora ferramentas e abordagens de busca e análise crítica do conhecimento que o permite continuar aprendendo ao longo de sua vida, é uma educação eficaz de "verdade". A EAD, quando baseada em concepções pedagógicas dentro destes princípios e quando utiliza ferramentas/tecnologias e linguagens compatíveis e potencializadoras destes fins, é capaz de possibilitar o processo de aprendizagem com eficácia.

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Como se dá o processo de aprendizagem em EAD?

O processo de aprendizagem em EAD deve ser entendido como um processo de construção particular do aluno, com base em suas próprias vivências e experiências prévias e na interação/negociação com significados, experiências e conhecimentos de outras pessoas envolvidas em seu meio social ou escolar.

O aluno de EAD deve ter acesso garantido a informações, materiais educativos de qualidade, a pessoas com diferentes níveis e tipos de experiências nas questões abordadas, num ambiente propício ao questionamento, autonomia e voz e à troca, bem como à orientação construtiva em seu processo de aprendizagem.

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Que modelo pedagógico deve sustentar a EAD?

É fundamental compreender que a questão sobre educação, hoje, está profundamente relacionada as novas demandas do processo de trabalho, motivadas pelas mudanças na produção e na difusão de bens e conhecimentos por meio dos avanços científico-tecnológicos em nossa sociedade. Veja bem, isto não é uma defesa dos rumos da educação; é uma constatação do contexto atual que, em contraposição a outros períodos, estabelecia um divisor de águas entre a educação, como formação integral do cidadão, e a formação profissional, ambas complementares e funções da nossa sociedade. Hoje, esta relação se transforma, oferecendo um novo paradigma, ainda não muito claro sobre seus valores éticos e morais e as conseqüências de sua prática.

Fato é que o modelo pedagógico tradicional não dá conta destas demandas e a EAD pode ser um veículo para responder estes desafios se integrar uma proposta transformadora da realidade, adotando novos paradigmas sobre o conhecimento e aprendizagem. O paradigma que propomos fundamenta-se nos princípios básicos do construtivismo, uma corrente epistemiológica cuja premissa fundamental é a idéia de que o indivíduo é agente ativo de seu próprio conhecimento. Isto é, constrói significados e define o seu próprio sentido e representação da realidade de acordo com suas experiências e vivências em diferentes contextos. Estas representações, no entanto, estão constantemente abertas a mudanças e suas estruturas formam as bases sobre as quais novos conhecimentos são construídos.

Esse enfoque distancia-se da idéia de que o conhecimento acumulado possa ser compreendido e compartilhado através de mera transmissão de informações e de uma visão linear e simplificada dos fenômenos envolvidos, como se suas manifestações fossem imperiosamente a mesma, independentemente do contexto, isto é, das condições em que ocorrem. Assume que o processo de formação tem como eixo fundamental o pensamento crítico e produtivo e a atividade consciente e intencional do aluno na resolução de problemas do mundo real em diversas instâncias (técnica, interpessoal, política, etc.), informada por uma gama de conhecimentos e metodologias que vêm se desenvolvendo e renovando a cada dia.

As experiências vivenciadas por profissionais da área saúde contribuem para as representações e conseqüentes atuações no campo da saúde. Essas experiências podem ter sido adquiridas tanto anteriormente como leigos "cidadãos-usuários da rede pública ou privada de saúde", ou através da mídia que veicula notícias sobre o setor, quanto a partir do conhecimento técnico-científico adquirido nos períodos de formação e no exercício da prática profissional, compartilhando e aplicando conhecimentos e valores tomando decisões para a solução de problemas de seu contexto e área de atuação.

É neste sentido que este enfoque torna-se essencialmente interessante para a educação permanente em saúde: o profissional é um adulto cuja natureza e formação conferem-lhe uma série de experiências e representações que estão em constante processo de transformação através de vivências pessoais, da troca com outros profissionais direta ou indiretamente envolvidos com as atividades que exerce (outros profissionais do serviço, com outros serviços e com níveis mais centrais de gerência), além da realidade apresentada pela população alvo. Cada atividade ou procedimento novo necessita ser pensado de forma a viabilizar sua integração/renovação na prática. Não é possível acreditar que procedimentos inovadores ou mesmo normativos, por exemplo, possam ser incorporados simplesmente a partir de uma regulamentação transmitida de cima para baixo. Qualquer inovação deve ser compreendida no âmbito das vivências, experiências e necessidades do contexto, tanto no sentido de suas formas de aplicação, como no compartilhamento com os atores envolvidos no processo. A maior relevância deste enfoque ultrapassa a visão de um programa de capacitação específico, mas indica uma postura em relação ao conhecimento e possibilita uma organização do trabalho onde a formação e produção de serviços possam estar intimamente integrados.

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Como é o sistema de avaliação em EAD?

A avaliação em EAD deve ser constante e tutores orientadores e participantes devem ser encorajados a adotar uma atitude favorável à avaliação e auto-avaliação permanentes como princípio fundamental. O sistema de avaliação em EAD se dá em vários níveis, incluindo:

1) a avaliação do progresso dos alunos para fins de certificação e monitoramento do programa de EAD - inclui a definição de parâmetros de qualidade e quantidade para o desempenho do aluno nas atividades propostas no curso: e a auto-avaliação que, é fundamental na abordagem construtivista;

2) a avaliação do contexto e dinâmica do programa de EAD pelo aluno e pelo tutor - é necessário espaço para que os participantes avaliem a qualidade do material, as formas de participação e a dinâmica, e;

3) avaliação "gerencial" do programa, que consta da análise da infra-estrutura organizacional e logística que viabiliza o funcionamento do programa, do fluxo de informações (estatísticas), diagnóstico de problemas encontrados, análise de transcripts, e de custo-benefício.

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Quais os recursos mais usados na EAD?

Os recursos passíveis de serem usados em EAD são inúmeros: áudio, vídeo, material impresso, ferramenta da Internet, vídeoconferência, teleconferência, telefone, fax, etc. A seleção dos recursos a serem utilizados deve, antes de mais nada, atender as possibilidades de acesso da população alvo e a natureza dos conteúdos estudados. Por exemplo, para basear-se na Internet, os estudantes necessitam ter acesso a recursos de informática e de infra-estrutura de redes de comunicação; da mesma forma, se um determinado conteúdo dos cursos é de natureza visual, o vídeo pode ser um recurso potencialmente mais produtivo para a aprendizagem do aluno.

No entanto, cabe ressaltar algumas questões: o material didático deve ter qualidade tanto no conteúdo como na forma de representação, e as suas estratégias de aprendizagem e linguagem devem ser compatíveis com o meio, com a população-alvo e com o conteúdo.

Finalmente, é fundamental ressaltar o papel das novas tecnologias de comunicação para promover a interatividade. Os serviços oferecidos pela Internet, teleconferência, lista de discussão, conversações em tempo real, correio eletrônico, entre outros, além do acesso a grande quantidade de informações e a programas multimídias, oferecem e ampliam os recursos necessários para a formação de ambientes cooperativos e construtivistas de aprendizagem a distância. Isto porque o profissional pode ter acesso a conhecimentos novos, trocar informações e experiências com outros profissionais da saúde em diferentes níveis de atuação e em outras regiões/culturas e realidades sem a necessidade de afastar-se de sua própria realidade, buscando em sua vivência pessoal e social, no ambiente de trabalho, elementos que contribuam para a resolução dos problemas de outros serviços, bem como a incorporação e avaliação intensiva de novas soluções ao seu local de atuação.

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Saúde é uma questão interativa. Como trabalhar as relações humanas na área da saúde através da EAD? Qual a natureza do conhecimento em saúde que pode mediar a EAD?

Para responder esta questão é fundamental atentar às explicações iniciais desta entrevista, quando ressaltei o fato de que ao falarmos sobre Educação a distância, estamos falando de educação; ou seja, do processo de transmissão, construção e reconstrução do conhecimento e da formação de cidadãos competentes e conscientes de seu papel em nossa sociedade, capazes de atuarem produtivamente e comprometidamente em seus ambientes sociais e em suas atividades profissionais. ... a EAD não difere da educação presencial em sua essência, já que ambos são educação... mas a EAD nunca pressupõe a distância de uma relação construtiva e dialógica entre os atores envolvidos no processo educativo. Esta questão é fundamental não só para a área da saúde, mas para qualquer campo.

Po outro lado, quando uma atividade de formação profissional em saúde demanda práticas interativas com a clientela ou mesmo com outros profissionais onde a presença física seja essencial para sua compreensão e desenvolvimento, o programa de EAD deve contemplar atividades presenciais supervisionadas em centros e serviços que passam a fazer parte da rede de formação a distância. As experiências vivenciadas passam a ser objeto de discussão e reflexão conjunta no âmbito do programa e a avaliação dos supervisores é considerada no processo de monitoramento do progresso do aluno. Combinam-se, assim, várias estratégias de aprendizagem, para atender as necessidades de uma formação consistente. Com esta abordagem e fazendo uso de atividades supervisionadas em serviço, pode-se oferecer qualquer tipo de formação em saúde na modalidade de EAD. Tudo deve ser bem planejado e organizado, é claro.

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Quais as vantagens da EAD? Quais as suas limitações?

Há muitos aspectos positivos em relação à EAD. Alguns, no entanto, parecem ser os mais críticos, na minha opinião. O primeiro, diz respeito ao acesso à educação, principalmente para adultos, isto é, a possibilidade de oferecer formação de qualidade sem barreiras de espaço e tempo a profissionais/trabalhadores que não podem deixar seus espaços de trabalho para completarem seus estudos. Por outro lado, a própria oportunidade de participar de um processo formativo sem afastar-se de seus locais de trabalho, facilita a integração e a contextualização dos conhecimentos novos ao processo onde serão aplicados; finalmente, estudar a distância exige responsabilidade, disciplina e autonomia na resolução de problemas e buscas de informação, contribuindo para formar, assim, um novo perfil de estudante.

As limitações também podem ser muitas e elas dizem respeito principalmente aos seguintes aspectos aos quais devemos estar atentos a todo momento e que já discutimos neste texto: acesso aos meios e recursos que viabilizam o programa de formação e adequação da linguagem do meio ao perfil dos participantes e à natureza do conteúdo. No entanto, considero que a principal limitação da EAD ainda é a visão prevalente do processo de ensino aprendizagem como transmissão de conhecimento e o papel do professor no centro do processo. É preciso abraçar uma nova filosofia sobre conhecimento e sobre processo educativo para que, de fato, ocorram mudanças substanciadas na educação, em geral, e a EAD possa ser explorada com todo o seu potencial.

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Perguntas


A Educação a distância é eficaz em termos de aprendizagem?

Como se dá o processo de aprendizagem em EAD?

Que modelo pedagógico deve sustentar a EAD?

Como é o sistema de avaliação em EAD?

Quais os recursos mais usados na EAD?

Saúde é uma questão interativa. Como trabalhar as relações humanas na área da saúde através da EAD? Qual a natureza do conhecimento em saúde que pode mediar a EAD?

Quais as vantagens da EAD? Quais as suas limitações?



 


 

 


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